ALVARO BAHAMONDES
(texto extraído do jornal Canal Aberto)
Uruguaio de nascimento e morando a mais de 30 anos em Ilhabela, Álvaro sempre que pode sai para mergulhar. Dentro d’água ele se transforma em homem-peixe, tamanho é o seu fascínio pelo ambiente marinho e os seres que nele habitam. Passa horas, literalmente, com o corpo, alma e mente imersos no mar, observando detalhes dos habitantes desse mundo submarino que é, ao mesmo tempo, tão próximo e tão longínquo, tão familiar e tão estranho, mesmo para milhões de pessoas que vivem no litoral, principalmente para os seres-urbanos.
Quando está em terra, Álvaro – que tem três filhos – passa o dia soldando eixos, bielas, rolamentos, velas de ignição, engrenagens, transmissões e estribos que ele salva do lixo, dando-lhes novos uso e formas, as formas de seres marinhos, com requintes de detalhes observados por Álvaro toda vez que se encontra imerso naquele que Jacques Custeau chamava de “o mundo silencioso”.
Recolhida a sucata, muita sucata, entram em ação o maçarico, martelo, alicate, serra, lixas, desengraxantes vão gerando imagens inusitadas, quase reais. Cintos de segurança, correntes, embreagens, pedaços de bicicletas, geladeiras, fogões, chapas, automóveis e motocicletas vão dando forma a tartarugas, caranguejos, pingüins, parus, baleia, cavalos-marinhos, meros.
O mais incrível é que, apesar de serem utilizados objetos grosseiros, os seres marinhos deles resultantes são incrivelmente suaves, com “rostos” expressivos; todos eles trazendo uma marca registrada do artista: lágrimas nos olhos, oriundas do medo, tristeza e incerteza em relação ao futuro dos mares e dos seres que nele e dele vivem, cada vez mais ameaçados. Mais que um alerta, sua obra pode ser descrita como um brado de apelo.
O trabalho escultórico que traduz a alma de Álvaro Gervásio Fernandes Bahamondes, que é autodidata, pode ser visto na Vila, o centro de Ilhabela, em exposição promovida pela secretaria da Cultura de Ilhabela na Praça das Bandeiras, pertinho da biblioteca municipal.
Sempre a céu aberto, nos últimos meses Álvaro realizou diversas exposições em São Sebastião, mais especificamente na rua da praia, com o apoio da secretaria municipal de Esportes e Turismo (Sectur). Ele conta que suas obras quase nunca voltam para o atelier, pois sempre estão “na estrada”. Para tentar dedicar-se integralmente à escultura, o artista está enviando um projeto a Petrobras. Algumas de suas obras estão a venda.
O atelier do uruguaio-caiçara fica na rua Deolindo mariano Leite, 61, no bairro da Barra Velha, região central do arquipélago. O telefone para contato é (12) 9164.8622.
Veja a matéria completa:
Amor e fascínio pelo mar transformam sucata em brado de apelo pela vida marinha
Jornal Canal Aberto - 15/11/2008